Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(Augusto dos Anjos, EU, 1912, Rio de Janeiro - RJ)
Agradeço ao grande mestre Augusto dos Anjos. Seus poemas são momentos que todos temos: crises existenciais. Sua visão de mundo é a mais cética e fria possível, o que reflete sua personalidade (poemas existenciais não costumam separar eu-lírico de autor).
A vida é um questionamento, e é esse questionamento que a torna tão interessante. Se o questionamento cessa, não há necessidade de viver. Assim como se o conjunto verdade for achado depois de trilhar a existência, chega-se ao fim da grande equação, que nem Bháskara e Descartes saberiam resolver com seus números, fórmulas e desenhos, da vida. O único motivo de viver é rasgar o véu da realidade e ver o que te observa por trás dele. Enquanto houver questionamento, haverá existência. Um brinde à nossa imortal questão!
Ótimo começo.
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